quarta-feira, junho 21, 2006

Uma dúvida chamada literatura macaense

Existe uma literatura macaense? Esta foi a grande dúvida que marcou o segundo e último dia do encontro "Lusofonia: Os Caminhos da Escrita", organizado pela Instituto Português do Oriente (IPOR). Uma questão que dividiu a audiência e, mais do que isso, os especialistas portugueses e chineses presentes.

"Existe literatura de Macau, sobre Macau, de gente que passou por cá, mas não há uma literatura macaense", defendeu Beltrão Coelho, o principal editor privado em língua portuguesa na RAEM. O problema, disse, é que "não há um ambiente que provoque tertúlias, não há uma comunidade literária". O que existe, explicou, são "franco-atiradores ao longo dos tempos", muito dos quais nem são naturais do território, mas passaram nele um determinado período da vida. Ou ainda autores que estão em Portugal e que escreveram sobre Macau, cuja obra muitas vezes até é mais conhecida na RAEM do que a dos autores locais, reconheceu.

Paradoxalmente, para Beltrão Coelho, cada vez há mais gente academicamente preparada e "condições para produzir no território, desde que não pensemos só em português, mas em toda a comunidade". Isto porque, na sua opinião, "tudo o que se possa fazer agora tem que ser efectuado sempre a pensar nas duas línguas: editar em português ou chinês e imediatamente traduzir para o outro idioma". Para o editor, só assim "se consegue uma coexistência e uma convivência cultural".

O problema, afirmou Beltrão Coelho, é que "não existe, como nunca existiu, um incentivo para a escrita" em Macau. Por isso, defendeu a criação de mais prémios literários (o IPOR apresentou recentemente um relativo ao conto infantil) e até de bolsas de escrita, patrocinados, por exemplo, por mecenas ligados à indústria do jogo. "Macau tem condições financeiras para o fazer, só não tem essa preocupação cultural", atirou.

LITERATURA CHINESA EM ALTA. Se do lado português o panorama traçado foi negativo, já junto da literatura produzida em Macau de expressão chinesa, a reacção é a inversa. Nas palavras de Stella Lee, especialista em literatura macaense e membro do Instituto Cultural, do lado chinês da RAEM existem "pelo menos cerca de 30 autores, especialmente poetas". Entre os mais novos, acrescenta, há mesmo "uma rede de troca e de contacto" criativo.

"A literatura de língua chinesa em Macau existe há já muito tempo", referiu Stella Lee. "Nos anos 80 do século passado, como Macau estava estabilizada, após o 25 de Abril de 1974 e a Revolução Cultural, a literatura chinesa cresceu muito, chegando ao topo nos anos 90", acrescentou. "De momento, está um pouco em queda, porque enfrentamos uma nova Macau e temos que pensar sobre o que vamos escrever".

Um dos principais impulsionadores desta literatura têm sido o jornal "Ou Mun", que organiza anualmente um concurso literário. "Daí nasceram vários autores", assegura Stella Lee, acrescentando que a maioria são mulheres de meia-idade.
Ao contrário da comunidade portuguesa, onde o termo "literatura macaense" ainda levanta muitas dúvidas, nos falantes de chinês, este é um assunto arrumado. "Tem que ter como tema Macau e ser escrita por autores que vivam na RAEM há muito tempo", explicou a especialista, referindo-se às conclusões de um colóquio recente.

PONTES ENTRE CHINA E LUSOFONIA. A problemática da definição da literatura macaense surgiu ontem, durante a primeira mesa do segundo e último dia do encontro "Lusofonia: Os Caminhos da Escrita", onde participavam, além de Stella Lee, o sociólogo José Carlos Venâncio, o leitor de português na Universidade de Pequim Gustavo Infante e a autora de origem cambojana residente em Macau Liao Zixin.

Curiosamente, foi sobre a escritora que caíram muitas interrogações. Isto porque o seu livro "As alucinações de Ao Ge", escrito em e sobre Macau, já se encontra traduzido para francês e prepara-se agora para ser publicado em russo, sem que exista ainda uma versão portuguesa. Segundo a própria, isso deve-se ao facto da troca de culturas na RAEM não ser suficiente, porque não existe um meio para isso. No entanto, o IPOR anunciou que, em Março do próximo ano, essa lacuna será colmatada e Liao Zixin vai passar a poder ser lida na língua de Camões.