quarta-feira, maio 03, 2006

Impressões passadas II


Até ao próximo domingo, o Teatro da Cornucópia tem em cena “A Gaivota”, de Anton Tchekov. Um texto difícil e aberto a várias interpretações, onde Luís Miguel Cintra responde novamente ao porquê de ser o melhor actor da sua geração.

Centrada nas relações que se tecem entre a arte e a vida dos artistas (e dos outros), este texto constitui a primeira ponta da tetralogia que consagraria Tchekov como um dos maiores autores do conto moderno russo (as outras seriam “O Tio Vânia”, “Três Irmãs” e o “Cerejal”).

N’“A Gaivota”, todos os sentidos são difusos, a começar pela própria classificação da peça, entremeada entre a comédia, o drama e a tragédia. Talvez por isso, a definição que soa a mais certa seja a do próprio autor: "Uma comédia, três papéis de mulher, seis para homens, quatro actos, uma paisagem (vista para um lago), muitas conversas sobre a literatura, um pouco de acção, um toque de amor". E, talvez também por isso, a peça tenha sido vaiada no dia da estreia, em Moscovo, para, na segunda apresentação, apenas quatro dias depois, ser um sucesso.

Na versão da Cornucópia, os contrastes também marcam “A Gaivota”. A começar pela soberba actuação de Luís Miguel Cintra, a milhas de outros actores, bem mais modestos. Por outro lado, na sequência dos actos, há alguma falta de ritmo que aborrece o espectador, entrecortado com momentos hilariantes. Aqui, também os sentidos ficam em aberto, sem ser claro se é a bucolia do campo que salva e torna o protagonista num autor reconhecido, se é o amor que corrompe e destrói as almas daqueles que seguiram o sonho para a cidade.

Em suma, “A Gaivota” é uma peça realista na sua essência. Em contraste com o romantismo que a precede, pretende retratar a realidade e a sociedade na sua totalidade. Por isso a necessidade do amor adúltero, da falsidade, do egoísmo, da impotência e, finalmente, do suicídio. E também do anti-herói: o homem comum, cheio de problemas e limitações. Infelizmente, é pouco mais do que isso que se vê na Cornucópia: uma representação comum de um texto cuja beleza radica nos problemas complexos que toca.